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UFMG EDUCATIVA: entrevista brinquedos e brincadeiras e formação da criança

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OUÇA AQUI AS PRIMEIRAS MÚSICAS DE NOSSO CD: produção: Claudio Emanuel, Marilza Máximo e Rogério Correia Direção Musical: Silvia Lima e Christiano Souza Oliveira

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sábado, 15 de outubro de 2011

O livro da vida das crianças : minha primeira experiência como etnográfo.


Em 1998 eu e cinco professoras da Escola Municipal Edison Pisani, localizada no aglomerado da Serra, Vila Fátima, em Belo Horizonte, trabalhavamos com as crianças de 6 anos. Era meu segundo ano Escola e resolvemos desenvolver um projeto montando com as crianças um livro que falasse das suas vidas. Seria um projeto como outro se não fosse a idéia sugerida por Elise de tirarmos fotos das crianças. Ficamos empolgados com a idéia e tanto eu como Elise haviamos feito oficina de fotografias encontrando um bom momento pra exercitar. Eram ao todo 3 turmas, quase 80 crianças e cada uma tinha direito de tirar 3 fotos. Quando perguntamos com quem elas queriam tirar as fotos pra nossa surpresa (pois não havíamos pensado nisto)a maioria das crianças faziam escolhas como "eu quero tirar uma foto com a minha mãe" ou "com o meu cachorro" ou ainda "em meu quarto". Desta forma, abraçamos a nova ideia de conhecer a casa dos meninos e a Vila como um todo.

Passamos o semestre saindo duas vezes por semana (inclusive nos sábados) cada um com um grupo de 5 a 6 crianças (o que exigiu uma logistica enorme pois mapeamos todos os endereços das crianças e as organizamos por grupos de vizinhança e parentesco) em direção a casa das crianças. Passávamos pelos becos, ruelas da vila orientados pelas crianças. O clima era de festa. Andando por um terreno desconhecido de novos cheiros, ruídos, dos olhares dos moradores, tudo era muito novo e ao mesmo tempo incerto. Meu maior medo era cair numa boca de fumo ou ter que negociar com os traficantes nossa caminhada pela vila o que de fato nunca aconteceu embora soubessem da nossa presença. Fora da escola os papéis se invertiam: "Estou com as crianças e elas tomam conta de mim", pensava o tempo todo e isto me deixava mais seguro.


Chegando nas casas das crianças encontrávamos todo o tipo de situações: a presença dos avos, dos irmãos mais velhos e mais novos, da mãe, as vezes ninguem. Era um verdadeiro acontecimento e realmente era muito bonito ver as crianças tomando a iniciativa de chamarem os parentes para tirarem as fotos. Nas fotos vamos encontrar nossas crianças com suas mães e avós, os irmãos e primos, os brinquedos, os quartos, os animais de estimação. Podemos indagar as fotos para falar daqueles que não aparecem nelas como os pais. E o que dizer dos seus olhares? Tivemos acesso as redes de relações das quais as crianças fazem parte e através das quais podemos identificar as relações de cuidado e abandono, os grupos de pares ou os grupos das crianças com quem nossos alunos conviviam diariamente, responsáveis pelas brincadeiras, pelo cuidado das crianças menores, pelo trabalho da casa, dos adultos que cuidam das crianças e das suas expectativas em relação à escola. A imagem do trafico e da violência que tinha anteriormente sobre aquele ambiente também estava presente mas ficou diluída e ganhou menos peso nas conversas que tinha com as pessoas, me mostrando outros aspectos importantes da sociabilidade destas crianças. Ficamos tão empolgados com o projeto que comprei um ampliador de fotos e montamos no banheiro do apartamento de Elise nosso pequeno laboratório. Na escola, além de conversarmos sobre as visitas trabalhavamos com as fotos de Sebastião Salgado. Dizia para as crianças enquanto mostrava uma linda e enorme foto de uma criança refugiada: "se a gente fizer bastante silêncio, somos capaz de escutar o que ela tem a nos dizer!" Um silêncio se fazia na roda de crianças sentadas comigo diante de uma foto que há pouco tempo atras não despertava tanto a atenção delas. De repente as crianças começavam a falar, mais de si mesmas do que elas imaginavam.
Para mim foi uma das experiências mais fortes que vivi com as crianças expandindo minha relação para além dos muros da escola, conhecendo mais de perto como era a vida delas, no espaço da vila e em seu grupo familiar. Foi realmente meu primeiro trabalho de campo como etnógrafo.


Não parecendo fazer um discurso pronto ou ocupar um lugar comum, não posso negar que aprendi a ver as crianças como produtoras de cultura como sujeitos que tinham muito a dizer sobre como viam o mundo. Questionando minha posição de adulto aprendi a considerá-las como sujeitos plenos, muito diferente da imagem que tinha como seres incompletos. Aprendi a dar ouvidos as crianças e apostar em suas capacidades. Talvez essa tenha sido pra mim a grande lição. Do projeto ainda guardo algumas fotos que resolvi postá-las aqui e escrever este texto.

Um comentário:

Margarida disse...

Oi, Rogério!

Achei muito interessante o seu trabalho etnográfico... queria ler mais. Publicou na íntegra o trabalho em algum lugar? como poderia ter acesso ao trabalho? Meu marido é professor de fotografia e também ficou interessado...

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